|
Visão da Engenharia Panamericana
“O mercado Latino-americano é o caminho natural para o Brasil exportar serviços de engenharia. A região carece de investimentos nos últimos 40 anos para grandes projetos de infra-estrutura e o Brasil possui uma engenharia capacitada para atuar na região”.
A opinião é do engenheiro Cláudio Amaury Dall’Acqua, presidente da União Panamericana de Associações de Engenheiros - UPADI, entidade que reúne 27 países da América Latina. Ele ressalta que o Brasil detém o segundo maior contingente mundial de engenheiros no mundo: 500 mil profissionais. “Quem é competente trabalha em qualquer lugar. É mais fácil os engenheiros brasileiros prestarem serviços na América Latina do que os outros virem até aqui, onde já há tantos profissionais e de grande competência”, diz.
Considerando a região um mercado fantástico para o Brasil, pondera que é preciso adotar estratégias para conquistar os países vizinhos, a exemplo do que fazem os Estados Unidos e alguns países da Europa: “Para ter parceiros o Brasil precisa tratar muito bem os demais países de América Latina, realizando estudos de projetos a fundo perdido, além de articular programas de financiamento e desenvolvimento. No mundo todo, quem traz o dinheiro faz a obra, por isso é importante as empresas brasileiras se capacitarem junto aos organismos financiadores, uma vez que é reconhecido que os países latinos preferem trabalhar com empresas brasileiras”.
Ao analisar a situação econômica dos países latinos-americanos, o presidente da Upadi refere-se aos modelos econômicos semelhantes adotados, visando o equilíbrio fiscal, deixando de lado a previsão de uma parcela para investimentos produtivos no momento da renegociação de suas dívidas. “Com isso a engenharia e a infra-estrutura dos países foram muito afetados”.
As obras anunciadas para modernização e ampliação do Canal do Panamá são, no momento, a “menina dos olhos” de construtoras do mundo todo. Segundo Dall’Acqua, envolvem investimentos de US$ 50 bilhões, 70% dos quais financiados pelos Estados Unidos. O Brasil, no governo FHC, anunciou sua pretensão de participar do empreendimento com US$ 7 bilhões e o fornecimento de serviços e equipamentos por empresas brasileiras. “Atualmente, esse projeto está em análise estratégica no Ministério do Planejamento e as empresas de engenharia da América Latina contam com o apoio da UPADI para participar dessa obra”, informa o presidente da entidade. Uma missão de construtores brasileiros esteve em visita ao canal em 2002 e estuda a forma de participar do conjunto de obras.
Bastante capacitadas e com um leque de anos de trabalhos bem-sucedidos no exterior, muitas construtoras brasileiras têm apostado nas obras pesadas que surgem no continente latino-americano. Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, ARG são algumas que se têm dedicado a prospectar trabalhos nesse mercado e, como resultado, têm faturamento crescente na área.
Alca em discussão
Com relação à área de Livre Comércio das Américas (Alca), Cláudio Dall’Acqua considera que, no caso da engenharia, o projeto é pernicioso ao programa brasileiro de desenvolvimento, devido ao fato de o País não possuir recursos para investimentos. No seu entendimento, a análise da pauta de negociações mostra que será fácil a vinda de projetos de engenharia do exterior, acompanhados por especificações que privilegiam máquinas e equipamentos estrangeiros, tirando a oportunidade das empresas brasileiras. “A Alca é boa para os setores de calçados, suco de laranja, soja e frango, porque permite a queda de barreiras, mas é danosa para a engenharia brasileira. O Brasil precisa negociar bem para ser um parceiro de peso. Tem de saber ceder e exigir. Uma das saídas seria o sistema Confea-Crea criar uma resolução interna, determinando que o exercício profissional no País pode ser praticado por estrangeiros, mas que o projeto tem de ser desenvolvido no Brasil, o que cria uma barreira técnica importante”, afirma.
Por sua vez, o engenheiro Roberto Kochen, diretor-técnico da UPADI, destaca que a inserção da engenharia brasileira na Alca não ocorre de forma positiva e equilibrada: “Haverá predominância de uma única nação sobre toda a região, afetando desfavoravelmente a engenharia e o desenvolvimento dos países do continente”, afirma.
Na sua visão, é preciso que sejam tomadas diversas medidas no âmbito governamental, entre as quais a equalização tributária entre os países; fundos de desenvolvimento tecnológico para capacitação das empresas de engenharia; fundos para desenvolvimento de estudos de viabilidade de obras de infra-estrutura; sistemas de seguros de riscos políticos; sistemas de financiamento de serviços de engenharia com taxas de juros compatíveis com as do mercado internacional; e intercâmbio de estudantes para criar laços culturais entre vários países da região.
De acordo com Kochen, é necessário o planejamento por eixos regionais de desenvolvimento e um esforço conjunto para criar instrumentos eficazes de ação política, diplomática e comercial, ocupando os espaços de oportunidades que serão criados com a expansão da Alca em direção ao sul do continente americano. “Tudo isso precisa ser feito sem que o desenvolvimento humano dos países da América Latina fique em segundo plano”, ressalta.
No Iraque?
Ainda para Cláudio Dall’Acqua, o Brasil que tem um histórico de obras no Iraque, entre as quais a construção da ferrovia Bagdá-Akaasshat, com 553 km de extensão, considerada uma das cinco maiores obras públicas do mundo, na época tem poucas possibilidades de trabalhar na reconstrução daquele país, pois a licitação interna feita nos Estados Unidos escolheu algumas empresas norte-americanas para coordenar os trabalhos, como a Bechtel. “As chances são apenas para as que tiverem alguma vinculação com as empresas contratadas. É preciso que o Ministério de Relações Exteriores negocie e ofereça parcerias comerciais para que as empresas brasileiras possam atuar nesse conjunto de trabalhos”.
A Bechtel norte-americana foi selecionada para projetar os trabalhos de reabilitação, atualização, reconstrução e construção de infra-estrutura iraquiana, incluindo um porto, cinco aeroportos, rodovias, sistema ferroviário, serviços de água e esgoto, escolas, instalações de saúde e sistemas de irrigação. O contrato para coordenar o esforço de reconstrução, no valor de US$ 680 milhões, deve contar com centenas de empresas subcontratadas, pois a Bachtel está terceirizando cerca de 90% de seu trabalho.
Segundo representantes da companhia, entre abril e maio, a empresa recebeu 87 mil consultas de empresas desejosas de participar dos serviços no Iraque.
Uma das empresas brasileiras cotadas para participar deve ser a Método Engenharia, uma vez que há cinco anos detém uma joint venture com a norte-americana Bechtel, denominada Bechtel Método Tecnologia. Victor Henrique Foroni, diretor da construtora brasileira, informa que os serviços de reconstrução de escolas, hospitais, prédios administrativos e estruturas de telecomunicações devem consumir recursos de US$ 150 milhões/ano e devem ser iniciados dentro de três meses.
A Método mantém, desde 2002, um escritório nos Emirados Árabes, que poderá servir de quartel-general para comandar suas operações no Iraque. Naquele país, firmou parceria com a empresa local Civilco e já está construindo um condomínio residencial na Capital Abu Dhabi. Por conta desse panorama e pelo fato de ser uma parceria conhecida da Bechtel, considera-se com boas chances para executar trabalhos no Iraque. Por sua vez, a Construtora Norberto Odebrecht, que mantém uma subsidiária nos Estados Unidos, com um currículo expressivo de obras realizadas naquele país, credenciou-se junto à Bechtel, com a qual já realizou projetos, visando participar dos trabalhos no Iraque.
Garantir a água subterrânea
Uma ação inédita uniu os países do Mercosul Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai para a defesa preventiva dos lençóis hídricos transfronteiriços formados pelo Aqüífero Guarani, que tem 1,2 milhão km, abrangendo os quatro países e se constitui em recurso estratégico de água doce para o Cone Sul.
O Projeto Aqüífero Guarani foi orçado em US$ 27,24 milhões, incluindo US$ 13,4 milhões do Fundo Mundial para o Meio Ambiente, um dos parceiros internacionais, ao lado do Banco Mundial (Bird), Organização dos Estados Americanos (OEA), Agencia Internacional de Energia Atômica (AIEA) e governos alemão e holandês.
Segundo o Banco Mundial, na área abrangida pelo Aqüífero Guarani vivem cerca de 15 milhões de pessoas e, embora nem todas sejam abastecidas por suas águas, sabe-se que o numero de usuários deverá aumentar em decorrência de crescimento populacional e do maior consumo por parte das indústrias. Apenas na cidade de São Paulo, mais de 60% da população depende das águas do Guarani. A longo prazo, o projeto beneficiará essa população na manutenção de um suprimento sustentável de água para consumo humano, de boa qualidade para uso industrial, de estâncias hidrotermais turísticas, além de redução do potencial de conflito pela água em regiões de fronteiras.
Vinod Thomas, diretor do Bird no Brasil, e Axelvan Trotsenburg, diretor para Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, destacam ainda a importância do controle da população das águas subterrâneas do Guarani. Ao longo da fronteira Brasil-Uruguai, por exemplo, a população é um problema grave. Diferentemente da águas fluviais, a contaminação das águas subterrâneas é irreversível ou só pode ser recuperada a um custo muito alto. “É importante para os quatro países garantir que as população das áreas vulneráveis disponham de sistemas de esgoto adequados e passem a controlar o uso de pesticidas e fertilizantes”, afirmam os diretores do Bird. Por isso, consideram que a gestão sustentável da água serve como base do crescimento econômico e social: “Na região do Mercosul, o desenvolvimento populacional e industrial depende dos recursos disponíveis, inclusive da água. No momento em que o crescimento econômico é urgentemente necessário, a implantação do Projeto Aqüífero Guarani pelos quatro países representa a garantia de que este recurso básico contribuirá efetivamente para o desenvolvimento regional, beneficiando, assim as futuras gerações”.
|