|
DILEMA
Muitas vezes fico analisando os rumos econômicos de algumas economias e deparo-me com um dilema que não sei responder. O que é mais desajeitado para uma economia: o vôo da galinha ou a dança do caranguejo?
Fazer projeções econômicas ou avaliar os estágios de desenvolvimento dos países da América Latina - entre eles e principalmente o Brasil - é um exercício arriscado. A probabilidade de erro é grande e bem maior do que em países maduros. As mudanças institucionais que movem esses países para um novo modelo de desenvolvimento fundado na democracia, na economia orientada pelo mercado e em fortes instituições, são recentes. Apesar do surgimento de novas crenças de sociedade, as velhas ainda dominam grande parte dos formadores de opinião.
Modelos sofisticados adotados no mundo desenvolvido, com uso de métodos quantitativos avançados e de softwares poderosos, também estão sujeitos a revisões ou ajustes, mas as projeções são mesmo assim realizadas, dada sua importância para avaliar riscos (management risks) e para decisões estratégicas das empresas (business plan) e dos governos.
Há bastante tempo economistas e colunistas especializados nos informam que o investimento é baixo no Brasil (cerca de 19% do PIB) porque a poupança é baixa. E, que a poupança é baixa porque somos um país pobre, que vive levando a comida da mão para a boca. O pensamento cristalizado entre esses arautos, é de que como o pobre consome tudo o que ganha, não tem como poupar e investir.
Quem desconsidera esses fatores e acredita que crescimento é apenas uma questão de vontade política (foi assim nos tempos em que a conta dos fracassos podia ser remetida aos pobres) dirá que os resultados a ser alcançados serão medíocres.
Essa corrente advoga uma política econômica alternativa baseada em redução do superávit primário, diminuição voluntarista da taxa de juros e intervenções para promover a desvalorização cambial. O PIB poderia até crescer mais, mas creio que o processo não seria sustentável. O crescimento seria abortado por uma crise de confiança e pela volta da inflação.
A falta de investimento ou o investimento insatisfatório de hoje, poderá tornar-se um crescimento econômico problemático amanhã.
O baixo nível do investimento é uma das principais razões pelas quais o crescimento brasileiro assemelha-se ao vôo da galinha: mal levanta do chão, termina logo em seguida.
São inúmeros os obstáculos ao investimento no Brasil: juros altos, alta carga tributária, má distribuição de renda, insuficiência de infra-estrutura, baixo crescimento econômico, câmbio relativamente baixo, alto risco regulatório e judicial e falta de acordos comerciais que abram mercado externo. Por outro lado, começam a aparecer os espantosos números da China. Todos sabem que a renda per capita da China é de apenas USD 1,1 mil (um mil e cem dólares) por ano e que o assalariado médio chinês ganha ao redor 80 dólares por mês, não tem 13º salário, não tem adicional de férias (nem férias) e não tem Fundo de Garantia. Mas, com base na revisão estatística divulgada há aproximadamente três meses, o chinês poupa e reinveste em média de 27% a 30% do que ganha.
O Estado chinês, como sabemos, tem grande participação na economia (cerca de 20% da produção industrial) e a maior parte dos investimentos se faz por meio das empresas estatais, que operam em nome do povo, resultando números que sinalizam que uma parcela perto de 30% do PIB chinês destina-se ao investimento. No Brasil, o único segmento que teve renda per capita do tamanho da chinesa, fora os bancos, foi a massa de miseráveis e excluídos, que recebem o assistencialismo do Programa Bolsa Família, assim como o aumento do salário mínimo, sem que lhes fosse seja exigida qualquer contrapartida. Nem a da obrigatoriedade da educação dos filhos. É ótimo para eles, mas não sei o quanto será bom para o país.
Percebe-se por essas análises, que o argumento de praxe está furado. Pode-se dizer que pobreza não é impedimento definitivo e que o tamanho do investimento também resulta de um traço cultural. Mas isso não explica a dança do caranguejo entre nós - dois passos à frente, três de lado e um para trás. Quem investe é o empresário, com dinheiro dele ou de terceiros (empréstimos ou subscrição de capital). O empresário não despeja dinheiro no ralo. Coloca-o na expansão dos negócios quando fareja mais vendas e crescimento do consumo. O Brasil é um mercado de 180 milhões de consumidores e isso não é pouco, ainda que a pobreza seja tanta e a distribuição de renda, o que já se sabe. Se o investimento é insatisfatório é porque o empresário não está convencido de que a expansão do mercado lhe dará retorno.
Por Eng. Cláudio Dall'Acqua
presidente da UPADI
(junho/2006)
|